DIÁLOGO SOBRE UM POUCO DE HISTÓRIA FAMILIAR.


O discípulo se aproxima de Niestévisky e diz:

Discípulo: Ó mestre dos mestres, senhor absoluto de absolutamente tudo, aquele cuja lenda se perpetuará pelo infinito e além, ó grande sábio entre os mais sábios da terra, e de todos os planetas habitados do universo...

Niestévisky: (interrompendo bruscamente) Olha, se você continuar com esse falatório, passará o infinito e o além e a gente ainda vai estar aqui. Diga logo o que você quer, hoje estou com um pouco de pressa, estou fugindo de umas pessoas que querem me dar um diploma de reconhecimento pela minha luta em favor da causa deles.

Discípulo: Mas mestre, isso não é uma coisa boa?

Niestévisky: Sim, claro que é, mas o problema é que são membros do movimento gay.

Discípulo: Mas ó grande, eu sempre soube que o senhor é um defensor dos direitos individuais do ser humano!

Niestévisky: E sou, é justamente por isso que eles querem me fazer uma homenagem! O problema é o que está escrito no diploma.

Discípulo: E o que é?

Niestévisky: Está escrito: Pelos enormes serviços prestado à nossa causa, concedemos ao senhor Niestévisky “O Grande”, o título de gay honorário. Se souberem disso, o pessoal do truco de sexta nunca mais me deixa em paz. Mas, enfim, diga o que você quer?

Discípulo: Bem, preciso de uma ajuda num trabalho que estou fazendo.

Niestévisky: Para a faculdade?

Discípulo: Não, para o supletivo.

Niestévisky: Mas você ainda não terminou? Já faz dez anos que você entrou lá!

Discípulo: Pois é mestre, mas agora falta pouco, mais alguns anos e já estarei bem perto de concluir a primeira metade dos meus estudos.

Niestévisky:
Tudo bem, e qual ajuda você quer?

Discípulo: Preciso fazer uma redação sobre o movimento feminista.

Niestévisky: Certo, pode consultar a minha biblioteca, possuo um vasto material sobre isso. Depois que fizer a consulta, se você tiver alguma dúvida por vir me perguntar. Eu conheço bem o tema, afinal, minha falecida avó foi uma mártir do movimento.

Discípulo: É mesmo? Que incrível. O senhor pode me contar um pouco sobre isso, talvez eu possa colocar na redação.

Niestévisky: Sim claro, com o maior prazer. Minha avó sempre foi uma mulher de brigar pelos seus ideais, e por qualquer coisa também. A velha tinha um direto de direita potentíssimo. Por isso ela foi apelidada de coice de mula, colocou muito marmanjo para dormir em brigas de bar.
Mas voltando ao que interessa, vou contar, resumidamente, como ela se tornou uma mártir do feminismo. Durante os anos sessenta minha avozinha estava participando de uma manifestação feminista, onde ela e as suas companheiras tiravam os sutiãs e depois os queimavam em praça pública. Havia muita gente naquele dia, e por isso a polícia foi chamada. Depois de alguma discussão, minha avó ficou irritada e nocauteou um policial. Então houve um tumulto, seguido de uma confusa correria. Minha avó também correu, mas infelizmente um forte golpe na cabeça acabou tirando a sua vida.

Discípulo: Puxa mestre, que triste isso. Mas e a sua família não processou o estado?

Niestévisky: Processar por que?

Discípulo: Por causa da violência policial. Ela não foi agredida pela polícia?

Niestévisky: Ah, não foi a polícia.

Discípulo: Então foi ferida por algum conservador radical de direita?

Niestévisky: Também não. Na verdade ela recebeu o ferimento quando caiu.

Discípulo: Ah, entendo, no meio do tumulto ela deve ter caído e em seguida foi pisoteada pela multidão em fuga.

Niestévisky:
Também não, ela correu para longe da multidão, fugiu para uma rua lateral que estava quase deserta. Enquanto caminhava por essa rua, ela tropeçou e caiu. Infelizmente ao cair ela bateu a cabeça no meio fio.

Discípulo: Bem, então se ela simplesmente tropeçou, tudo não passou de um acidente que não teve ligação direta com a manifestação. O senhor me desculpe, mas morrer assim não faz da sua avó uma mártir, ela poderia ter tropeçado em qualquer outra circunstância.

Niestévisky: Ora, mas é claro que faz! A queda está totalmente ligada à manifestação de que ela participava.

Discípulo: E como?

Niestévisky: Lembra que eu disse que elas tiravam o sutiã e queimavam?

Discípulo: Sim, lembro.

Niestévisky: Pois então, enquanto ela fugia da confusão, por estar sem sutiã, a pobrezinha tropeçou nos próprios seios e caiu.

O discípulo ainda tentou falar mais alguma coisa, mas no exato momento em que ia falar, ao longe um grupo de rapazes reconheceu o mestre e começou a correr em sua direção. Niestévisky, assim que viu aquele bando de rapazes correndo para o seu lado, vestidos com roupas femininas e sapatos de salto alto, saiu correndo para o lado oposto, numa velocidade inacreditável para um homem da sua idade.
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