DIÁLOGO SOBRE O ÓCIO PRODUTIVO


Enquanto passava pela frente do instituto do grande Niestévisky, o vizinho, antigo desafeto do mestre, observou que este se encontrava tranquilamente sentado numa cadeira de balanço, fumando um cigarro e olhando para o nada.

Nisso não havia nenhuma novidade, já que o vizinho quase sempre se deparava com a mesma cena, mas o fato é que isso, por alguma razão, o incomodava muito. Pois bem, esse incômodo foi se acumulando lentamente durante os anos, e nesse dia o vizinho resolveu partir para o ataque.

Sem pedir licença, ele foi entrando nas dependências do instituto e se aproximou do mestre. Normalmente o lugar é fortemente vigiado, já que ali se encontram as respostas para muitos mistérios da humanidade, do universo, do além, e de qualquer outra coisa que você possa imaginar. Por isso o lugar era fortemente vigiado, afinal, não seria bom que essas respostas caíssem na mão de governos, terroristas, ou pior ainda, da receita federal.

Mas nesse dia o vizinho teve sorte, já que o cão de guarda do instituto, Cérbero, um chihuahua psicótico com graves problemas de personalidade, havia sido enviado ao veterinário para manutenção. Não fosse isso, o pobre homem estaria com sua vida seriamente comprometida.

Aproximando-se do mestre, com cara fechada e sem nem mesmo dizer um cordial “boa tarde”, o homem foi logo falando:


Vizinho: Niestévisky, vejo que mais uma vez o senhor está ai sentado na varanda. Fiquei curioso, afinal de contas, o quê o senhor fica fazendo aí?

Niestévisky: Nada.

Vizinho: Foi o que eu imaginei. Desculpe me intrometer na sua vida, mas a ociosidade não é uma boa coisa.

Niestévisky: É verdade, a ociosidade é terrível. É uma péssima característica para as outras pessoas.

Vizinho: Como assim para as outras pessoas?

Niestévisky: Ora, já imaginou se ninguém trabalhasse? Seria terrível! Se ninguém fizesse nada, quem teria que fazer seria eu.

Vizinho: Ah sim, então todos devem trabalhar e só o senhor é que pode ficar ai ocioso?

Niestévisky: Sim.

Vizinho: E posso saber por quê o senhor pode ter esse privilégio?

Niestévisky: Já ouviu falar em ócio produtivo?

Vizinho: Sim, e imagino que o senhor vai me dizer que esse é o seu caso!

Niestévisky: Não vou dizer porque o senhor mesmo já disse. Mas é exatamente isso.

Vizinho: E posso saber o que esse seu ócio todo produz?

Niestévisky: Muitas coisas. Por exemplo, agora a pouco, antes do senhor me interromper, eu estava planejando uma aventura que me trará muita publicidade.


Vizinho: Que aventura?

Niestévisky: Estou planejando ser o primeiro homem a atravessar o canal da mancha, sem um barco, é claro.

Vizinho: (irritado) Mas já fizeram isso, e faz tempo!


Niestévisky: Já?

Vizinho: Sim!

Niestévisky: De bicicleta?

Vizinho: … bem... de bicicleta acho que não... Mas como o senhor vai fazer isso?

Niestévisky: Bem, isso eu ainda não sei, e se o senhor ficar aqui me atrapalhando, provavelmente nunca saberei!

Vizinho: O senhor é um sujeito muito excêntrico! Isso para não dizer bizarro, ou maluco mesmo! Que coisa, inventar uma desculpa absurda dessas só para justificar a sua preguiça!

Niestévisky: Antigamente a ideia da terra ser redonda também era absurda, não tenho culpa se o senhor não é um homem de visão. E além disso, é claro que não passo o tempo todo pensando apenas nisso. Como eu disse, meu ócio produz muitas coisas.

Vizinho: Pois então o senhor me diga mais uma coisa que ele produz.

Niestévisky: Produz descanso.

Vizinho: (desanimado) Não sei nem por que eu perguntei... Depois dessa vou embora, desisto! Até mais ver.

Niestévisky: Mas vai embora assim, sem nem tomar uma cervejinha?

Vizinho: (pensou um pouco resolveu aceitar o convite, afinal, estava calor e já que ele estava ali mesmo, não custava nada tomar uma) Tudo bem, vou tomar uma cerveja. Onde está?

Niestévisky: Não está. Acabou a cerveja, mas se o senhor for até o mercado buscar, ficarei muito agradecido.


Assim que Niestévisky terminou de falar, o vizinho virou as costas e saiu sem dizer nada. Até chegar em casa, ele foi chutando tudo o que encontrou pela frente.

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