PEQUENO DIÁLOGO SOBRE UM ANÃO... OU NÃO.




Certo dia, pela manhã, na hora costumeira de acordar, Niestévisky abriu a porta do seu quarto e foi fazer sua caminhada matinal pelos jardins do seu instituto. Normalmente o seu despertar não chamava muito a atenção, mas naquele dia havia algo diferente, algo inusitado, que acabou despertando a curiosidade nos seus discípulos. Naquela manhã Niestévisky não caminhava sozinho, estava caminhando na companhia de um anão.

Logo os discípulos começaram a perguntar se alguém sabia quem era aquele homenzinho. Ninguém soube responder. Perguntas surgiam por todos os lados. Quem era aquele anão? O que ele fazia caminhando ao lado do mestre? De onde ele veio? Qual o sentido último de todas as coisas? ( essa última pergunta não tem nenhuma relação com o caso, mas é uma boa pergunta) Muitas perguntas, mas nenhuma resposta. Bem, aquilo era estranho, mas muitas coisas estranhas sempre aconteciam com Niestévisky. Para se ter uma ideia, o dia mais estranho de todos, foi o dia em que nada estranho aconteceu no instituto.

Depois da caminhada, os dois voltaram para o quarto e ficaram lá até o meio-dia. Quando soou o sino chamando todos para o almoço, Niestévisky saiu do seu quarto e foi almoçar, sozinho. Enquanto servia a comida para Niestévisky, um dos discípulos resolveu aproveitar a oportunidade para tentar descobrir alguma coisa sobre o anão. Fez isso perguntando ao mestre, assim como quem não quer nada, se o seu novo amigo não viria almoçar com ele. Niestévisky respondeu que não viria porque a alimentação dele era especial, e além disso não era bom que o homenzinho ficasse exposto por muito tempo. O discípulo até tentou desenvolver a conversa, mas Niestévisky desligou seu aparelho auditivo, dando com isso uma clara indicação de que não queria ser importunado.

Certo, o que aconteceu naquela manhã foi realmente estranho, mas teria sido facilmente esquecido, não fosse por um pequeno detalhe: Na outra manhã tudo se repetiu, exatamente igual, nos mínimos detalhes. E não parou por ai, durante um mês Niestévisky acordou, saiu para caminhar com o anão, depois voltou pra o quarto, ficou lá até a hora do almoço e foi almoçar sozinho.

Passado tanto tempo, a curiosidade cresceu de tal maneira que ninguém conseguia mais suportar. Assim, elegeram um dos discípulos, e mandaram o rapaz ir até o mestre e perguntar de uma vez por todas, o que estava acontecendo. E ele foi, meio contra a vontade, mas foi. É impressionante o poder de convencimento que uma ameaça de linchamento possui.

O discípulo chegou perto do mestre, e então aconteceu o seguinte diálogo:

Discípulo: Mestre, desculpe, sei que não devemos nos intrometer nas suas coisas, mas todos estamos curiosos.


Niestévisky: Sobre o quê?


Discípulo: Sobre esse homenzinho que está vivendo no seu quarto.


Niestévisky: Hum, o que tem ele?


Discípulo: Bem, queremos saber quem é ele, de onde veio, porque ele não almoça com o senhor, essas coisas.


Niestévisky: Ele não almoça comigo porque a sua comida é especial.


Discípulo: Como assim?


Niestévisky: Ora, ele precisa de alimentação adequada, balanceada, etc, para que os procedimentos aos quais ele é submetido tenham melhores resultados. A alimentação, um pouco de sol matinal, uma tesourinha sem ponta, e algumas outras coisinhas secretas, são capazes de fazer verdadeiros milagres. Ah, até me comovo quando penso nos milagres que a ciência é capaz de criar. (nesse momento uma lágrima furtiva rolou pela sua face, mas não se sabe ao certo se foi de emoção, ou se foi por causa da catarata que tem acometido seus olhos cansados nos últimos anos)


Discípulo: Procedimentos? Ele está sob alguma espécie de tratamento, ou algo assim?

Niestévisky: Bem, pode-se dizer que sim.

Discípulo: Ah sei, acho que entendi. Imagino que deve ser algum tratamento para o seu problema.

Niestévisky: Problema? Que problema?!

Discípulo: Ora mestre, o nanismo!

Niestévisky: Onanismo? E por que você acha que ele tem problema com masturbação?!

Discípulo: Não mestre, não disse ONANISMO, eu disse O nanismo, com o primeiro o separado.
Niestévisky: Bem, ainda assim me parece que você está errado, porque nanismo é relativo a anão.

Discípulo: Então, é isso mesmo que eu disse.

Niestévisky: E quem sofre disso?

Discípulo: Ora, como quem? O anão!

Niestévisky: Que anão?

Discípulo: O seu amigo!

Niestévisky: Mas que amigo???

Discípulo: O seu amigo anão, que está morando no seu quarto!

Niestévisky: Ah, esse amigo... Bem, mas ele não é anão.

Discípulo: Como não?

Niestévisky: Não é.

Discípulo: Mas ele deve ter 1,30 cm de altura.

Niestévisky: Na verdade ele tem 1,27 cm. Foi o máximo que consegui até agora.

Discípulo: Que coisa, então ele era ainda menor?

Niestévisky: Não, ele era maior.

Discípulo: Mas o senhor está fazendo ele encolher???

Niestévisky: Sim.

Discípulo: Então é verdade, ele não é anão?!

Niestévisky: Pois foi o que eu te disse. No começo ele tinha 1,83cm.

Discípulo: Mas e por que fazer uma coisa dessas?

Niestévisky: Por vários motivos! Para o avanço do conhecimento humano, para a criação de uma nova ciência, para escrever meu nome na história, por diversão, por pura falta do que fazer, enfim, essas coisas.

Discípulo: Mas encolhendo esse homem o senhor quer provar o quê?

Niestévisky: Não quero provar nada, eu quero é criar!

Discípulo: Criar o quê? Qual a utilidade disso?

Niestévisky: (enquanto responde, o seu tom de voz vai crescendo, o seu discurso se torna grandiloquente, seu olhar se torna resplandecente, seus olhos se voltam para algum ponto perdido no horizonte, e o modo como fala deixa transparecer claramente todo o orgulho que sente do seu feito, e de si mesmo)

Bem, a utilidade ainda não sei qual é, mas imagino que as gerações futuras encontrarão alguma, provavelmente adaptarão essa tecnologia para criar alguma arma, ou um eletrodoméstico, ou algo assim. Quanto ao criar, posso dizer com orgulho que sou o primeiro homem do mundo a criar com sucesso, o primeiro e, por enquanto, único, e exclusivo Bonsai-Humano da história!
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