Reflexões sobre mais um sonho estranho de Niestévisky.



Niestévisky estava sentado na cadeira de balanço, na varanda de sua residência de campo, fumando um cigarro apagado, já que o médico o proibiu de fumar cigarros acesos, enquanto olhava para o nada com um profundo olhar vazio e meditativo. Seu discípulo, ao passar por ali e ver o mestre em tal posição, não resistiu e foi perguntar o que estava se passando no interior daquele magnífica cabeça.

Discípulo: Mestre, desculpe a minha curiosidade, mas eu, enquanto simples mortal que sou, apenas um pobre homem submerso nas trevas da ignorância, não posso deixar de perguntar quais maravilhosos pensamentos passam agora pela sua cabeça. Vejo o quanto o senhor está pensativo, com certeza deve se tratar de algum assunto elevado.

Niestévisky: Sim, de fato estou aqui meditando sobre algo que aconteceu comigo hoje.

Discípulo: Quando, hoje pela manhã?

Niestévisky: Não, foi durante a madrugada, enquanto eu dormia.

Discípulo: E o que aconteceu durante o seu sono sagrado, oh Grande sábio maravilhoso, oh gênio entre os gênios, oh senhor absoluto da humanidade, oh detentor supremo de todos os segredos herméticos do universo, oh...
Niestévisky: (interrompendo com uma certa rispidez) Tá bom, eu sou tudo isso, mas se você não ficar quieto, não vou poder contar o que aconteceu!

Discípulo: Ah sim, desculpe mestre, prossiga.

Niestévisky: Então, foi um sonho muito estranho. Eu estava num lugar desconhecido e chovia muito. Perdido, eu caminhava pelas ruas desertas daquele lugar, e assim segui vagando por algum tempo até que cheguei à borda de um precipício. Olhei para baixo, mas nada podia ser visto lá no fundo.


De repente o chão desmoronou e eu cai para dentro do precipício. Pensei que eu morreria ao bater contra o chão duro, mas para minha surpresa, em vez de me chocar contra o chão, eu caí num oceano. Perdido no meio de um mar gigantesco, comecei a nadar. Nadei durante dias e dias, sem que houvesse sinal algum de terra firme. Então, sem que eu me desse conta da sua presença, bati a minha cabeça contra um cano. Era um cano largo, com espaço suficiente para que eu pudesse entrar nele. Bem, foi exatamente isso o que eu fiz.


Entrei pelo cano e comecei a rastejar no seu interior, com um pouco de dificuldade. Foram dias e dias me arrastando dentro daquele ambiente claustrofóbico. Depois de muito tempo, encontrei uma curvatura no cano, que até ali era sempre reto. A curvatura era para baixo. Mesmo com medo, segui em frente. Descobri que o fim daquele cano dava numa enorme torneira. Escorreguei por ela e cai numa pia igualmente enorme, e cheia de água. Então, uma gigantesca mão surgiu do nada e puxou a tampa do ralo, e lá fui eu pelo cano do ralo junto com a água.


Depois de algum tempo rolando pelo esgoto, acabei desembocando num rio. Era um rio com uma forte correnteza, contra a qual eu não podia lutar. Sem ter o que fazer, deixei que a água me levasse. Depois de algum tempo, ouvi um ruido baixo, que foi crescendo de intensidade conforme eu ia me aproximando da cachoeira. Com muito medo, despenquei cachoeira abaixo. Foram dias e dias de queda, até que finalmente o meu voo teve um fim. Cai sobre a minha cama. Nesse momento eu acordei.


Discípulo: Que coisa mestre, foi um sonho realmente incrível! Imagino que um sonho tão extraordinário como esse deve possuir algum significado oculto.


Niestévisky: Sim, foi exatamente isso o que eu pensei. Por isso, sem nem mesmo me levantar da cama, comecei a meditar sobre o que eu havia sonhado.

Discípulo: E qual foi a sua conclusão?


Niestévisky: Bem, concluí várias coisas. Primeiro pensei que o fato de eu ser levado o tempo todo pela água se referia ao meu destino, e que por mais que eu lute contra ele, não posso, e nem devo lutar contra a minha missão sagrada de iluminar a humanidade com a verdade absoluta e iluminada da minha sabedoria.


Sobre o mar, onde eu estava boiando sozinho, imaginei que retratava a solidão que nós, os grandes homens, enfrentamos por sermos pessoas tão raras neste mundo, e que justamente por isso, jamais poderei contar com a companhia de seres iguais a mim. Por tando, a minha caminhada sobre a terra será solitária.


Sobre o cano que dava numa torneira e desembocava numa pia, bem, o significado me pareceu bem óbvio. Deveria ser a lembrança de que eu nasci para “lavar” a humanidade de todas as suas impurezas.


Sobre a cachoeira, acreditei que era um aviso de que eu, por mais medo que eu tenha, não devo tentar resistir ao meu destino. Que devo é me deixar levar por ele, pois no final de tudo, encontrarei o descanso dos juntos, simbolizado pela minha cama que me esperava no final da queda.


Discípulo: Sim mestre, me parece que esse deve ser realmente o significado correto do seu sonho.


Niestévisky: Sim, foi isso que eu também pensei enquanto estava deitado meditando sobre o sonho. Mas mudei de ideia assim que me levantei da cama.


Discípulo: Mas por quê?


Niestévisky: Bem, ao me levantar da cama descobri que a razão de eu haver sonhado com tanta água assim se deveu ao fato de que eu fiz xixi na cama enquanto dormia. E por falar nisso, venha comigo!


Discípulo: Onde mestre?


Niestévisky: Preciso de ajuda para colocar o colchão ao sol.
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