Neve.


Niestévisky possui um vizinho muito desagradável, um homem chato, mau-humorado, ranzinza, grosseiro, enfim, um homem cheio de defeitos. Porém, de todos os defeitos que ele possui, o maior de todos, com certeza, é a implicância que ele tem com Niestévisky. Inacreditavelmente, o homem não acredita na superioridade intelectual, mística, física e etc, do nosso grande mestre.
O sujeito mora só, o que é plenamente compreensível, já que ninguém suportaria conviver com alguém como ele. Pois bem, como não tem nada para fazer com a sua vida, ele passa o tempo todo pensando em alguma maneira de prejudicar a mundialmente famosa e renomada fama do grande Niestévisky.
Certa vez, sem aguentar mais o ódio iconoclasta que domina a sua alma nefasta, o homem chegou a praticar um terrível atentado contra o mestre... bem, na verdade não foi um atentado tão terrível assim, e também não foi exatamente um atentado. O ataque consistiu em pichar uma frase denegrindo a honra de Niestévisky. Armado com uma lata de tinta e um pincel, ele se arrastou sorrateiramente, ocultando-se sob o manto negro da escuridão da madrugada, e covardemente escreveu no muro do instituto onde Niestévisky mora, a seguinte frase: Niestévisky é um bobão! Esse ato absurdo revela duas coisas, a primeira é o ódio que ele sente pelo mestre, e a segunda é que o sujeito não é exatamente um prodígio na arte de ofender pessoas.
Uma outra vez, pela manhã, Niestévisky saiu de casa vestindo o seu pijama sagrado e foi buscar o jornal, que o entregador insistia em jogar em qualquer lugar que não fosse perto da porta. Por coincidência, no mesmo instante passava o seu vizinho pela calçada. Niestévisky, cordial como sempre, disse um amistoso bom dia, que foi respondido pelo vizinho com um indecifrável grunhido e continuou caminhando. Porém, sem conseguir conter o seu ódio irracional, o homem deu meia-volta e disse:
Vizinho: Andei ouvindo por ai que o senhor disse que pode controlar a natureza.
Niestévisky: Tu o dizes.
Vizinho: Sim, eu sei que eu digo... mas eu quero é saber se é verdade!
Niestévisky: É verdade sim.
Vizinho: Ah, isso já é demais! Como o senhor é muito mentiroso!
O mestre, ao ser ofendido, utilizou-se de toda a sua perspicácia, e lhe deu uma resposta à altura:
Niestévisky: Não sou não.
Com o sorriso de quem está prestes a dar um xeque-mate no adversário, o vizinho diz:
Vizinho: Pois então prove!
Sem se deixar intimidar, Niestévisky aceita o desafio.
Niestévisky: Pois então peça algo,qualquer coisa, que terei o maior prazer em executar.
Vizinho: Quero algo raríssimo, algo que jamais aconteceu antes.
Niestévisky: Sei, quer que eu arrume uma mulher para sair com você?
Vizinho: Ora, claro que não! O senhor deixe de ser engraçadinho... Eu quero que você faça nevar!
Niestévisky: Pois bem, é um pedido difícil de ser atendido, mas tudo bem. Dentro de alguns dias nevará.
Vizinho: Dentro de quantos dias? O senhor não pense que vai me enganar...
Niestévisky: Ora, meu amigo, eu não sou homem de enganar ninguém, não assim, de graça! Não posso dizer ao certo quando será, mas será logo, isso é certo.
Vizinho: Pois bem, esperarei então.

Assim os dois foram para as suas respectivas casas, sem despedidas nem gentilezas.
Os dias foram passando e nada de nevar, para contentamento do vizinho. Porém, 15 dias depois daquela conversa, o vizinho ouve seu telefone tocar, era Niestévisky.

Vizinho: Alô.
Niestévisky: Sou eu, Niestévisky. Estou ligando para saber se agora você está satisfeito.
Vizinho: Satisfeito com o que?
Niestévisky: Com a neve, oras. Ainda não viu? Vá até a janela.
O vizinho foi, abriu as cortinas e olhou parar fora por alguns instantes e voltando ao telefone diz:
Vizinho: Sim, acabei de olhar e não vi neve nenhuma. Está chovendo, mas nada de neve!
Niestévisky: Está nevando!
Vizinho: Não senhor, está chovendo!
Niestévisky: Nevando!
Vizinho: Chovendo!
Niestévisky: Nevando!
Vizinho: É chuva, gotas de chuva, gotas de água!
Niestévisky: É isso mesmo, gotas de água...
Vizinho: (rindo de satisfação) Ah, então admite a derrota!
Niestévisky: Claro que não, são gotas de água porque é neve líquida!
Vizinho: Neve líquida??? Ora seu... alô? Alô?...

O vizinho tentou contra-argumentar, mas reconhecendo a si mesmo como vencedor, Niestévisky desligou o telefone.
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