EPÍSTOLA SOBRE ARTE E MOVIMENTO


Caro discípulo, é com enorme pesar que lhe peço através desta carta, para que cancele as passagens de avião e as reservas de hotel, pois não poderei participar de bienal de artes modernas do Niestévistão, a grande pátria de onde meus antepassados imigram, ou foram “imigrados”, bem, mas isso não ao caso agora. É realmente uma pena, pois já fui convidado para esta mesma bienal, a do ano passado, mas como não pude ir, eu havia prometido que participaria da deste ano.


Bem, antes que você me pergunte, e eu sei que você fará isso, vou te contar o motivo do cancelamento da minha exposição. Você sabe que eu sou um grande artista, com um talento incomparável. Meu talento é tão maravilhoso que muitos críticos afirmaram que nenhum dos grandes gênios da pintura jamais pintaria como eu pinto. Na minha juventude pintei muitos picassos, van goghs, monets etc. Mas parei de pintar depois que eu acabei sendo aprisionado... pelo irresistível desejo de salvar a humanidade.


Apesar de eu haver abandonado as artes já há muito tempo, fiquei entusiasmado pelo convite, pois se tratava de expor na terra dos meus antepassados. Inclusive era minha intenção pesquisar a árvore genealógica da minha família nos arquivos da polícia do Niestévistão, mas isso ficará para quando eu for participar da bienal do ano que vem.


O meu sentimento de frustração é enorme, pois como fiquei muito feliz com a oportunidade de visitar a terra dos meus antepassados, resolvi criar uma obra grandiosa, algo que fosse digno de alguém como eu. Passei algum tempo pesquisando e estudei todas as tendências artísticas. Depois de muita pesquisa, resolvi optar pelo cinetismo. Caso você não saiba, e imagino que não saiba, a palavra cinético está ligado a ideia de movimento. É uma corrente artística que visa romper com a condição estática das artes convencionais como a pintura e a escultura, criando com isso uma obra que não só represente o movimento, mas que esteja em movimento realmente.


Bem, depois de um projeto meticuloso e horas de trabalho árduo, dei por terminada a minha obra. Porém, foi só então é que eu me dei conta de um problema, exagerei no cinetismo. A minha obra se movimentava, mas se movimentava demais. Tanto isso é verdade que assim que eu a concluí, ela saiu correndo. Fui atrás dela, mas as minha pernas cansadas não foram capazes de alcançá-la. Assim, resignado, eu me sentei no chão e fiquei vendo a minha arte desaparecendo na linha do horizonte.


Agora que já te contei tudo o que se passou, faça o que pedi, cancele as passagens e as reservas de hotel.

Um cordial abraço. Assinado, Niestévisky.


PS: Se você se deparar com uma... uma... bem, não sei exatamente como descrevê-la, mas enfim, se você se deparar com alguma coisa que você não saiba como descrever, e se essa coisa estiver correndo feito uma louca, deve ser a minha obra. Tente segurá-la, e pode usar de força bruta. Provavelmente ela só ira parar de correr se for abatida a tiros.
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