LEMBRANÇAS SOBRE O AVÔ DE NIESTÉVISKY E A GRANDE LIÇÃO QUE O MESTRE APRENDEU COM SEU ANCESTRAL.



Certa manhã, assim que Niestévisky acordou, lá pelas 11 h, o discípulo, como de hábito, entrou no seu quarto trazendo as suas vestes. Depois de ajudar o mestre a se vestir, o rapaz apanhou a dentadura sagrada de Niestévisky, que estava, como sempre, depositada dentro do Santo Graal cheio de água, sobre o criado mudo e escovou-a, poliu-a e a entregou ao seu mestre.
Agora, já de posse do seu cativante sorriso enigmático,Niestévisky pediu que lhe fosse servido o café da manhã. Enquanto o mestre comia, o discípulo, como de costume, aguardava, em pé, ao seu lado.
Sendo um discípulo muito aplicado, o rapaz resolveu aproveitar aquele momento de espera para aprender um pouco mais sobre a vida do seu mestre e assim coletar informações para que no futuro ele pudesse escrever um livro sobre o Grande Niestévisky, livro esse que certamente seria acolhido pela humanidade como sendo um novíssimo testamento e que mudaria para sempre toda a raça humana. Assim, possuído por esse nobre pensamento o discípulo começou o seguinte diálogo:


Discípulo: Mestre, desculpe dirigir-lhe a palavra enquanto o senhor alimenta o seu corpo, que nada mais é do que o templo que abriga a mais preciosa alma do universo, mas se não for atrapalhá-lo, gostaria que o senhor me contasse um pouco sobre a sua infância.


Niestévisky, embora odiasse ser interrompido enquanto comia, resolveu atender ao pedido do seu discípulo, pois naquela manhã ele estava de muito bom humor, graças a uma festa em homenagem ao deus Baco que o mestre havia dado na noite anterior, e que fora realmente muito boa.
Assim, olhando para o horizonte através da janela, com o olhar fixo em um ponto qualquer, o mestre começou a falar:


Niestévisky: Ah, minha infância, já faz tanto tempo... Bem, me lembro de muitas coisas, foi uma época bem rica da minha vida, onde aprendi grandes lições. Foi uma fase onde tive a oportunidade de aprender muitas coisas que me servem até hoje. Por exemplo,vou te contar de um episódio ocorrido entre meu avô e eu.
Quando eu fiz 7 anos, o velho me deu uma bicicleta. Feliz da vida, fui andar nela, vigiado pelo olhar atento do meu avô. O problema é que mesmo já sendo um gênio em muitas coisas, eu ainda não sabia andar naquilo. Naquele tempo a bicicleta ainda era uma invenção bastante recente. Bem, mas continuando, montei na bicicleta mas, poucas pedaladas depois, eu caí e me arrebentei todo. Machucado e humilhado, já que eu nunca havia fracassado antes, comecei a chorar. Tendo visto o acidente, o velho correu na minha direção, com a maior velocidade que o seu corpo desgastado pelo tempo permitia.
Assim que ele chegou onde eu estava, meu avô me deu a mão e me ajudou a levantar. Depois disse ele ergueu a bicicleta e, vendo que não havia nada quebrado, nela e em mim, disse que eu poderia subir na bicicleta novamente e voltar a andar. Mas eu, tomado pela prudência, que é uma característica inerente a qualquer sábio que se preze, achei melhor não andar mais naquilo.
Porém, ao ver a minha atitude, meu velho avô começou a me incentivar a continuar. Disse que às vezes nós sentimos medo, e que isso é natural, e até desejável. Disse que eu não poderia desistir, pois durante a vida eu teria que enfrentar muitos outros obstáculos, e muitos deles bem maiores do que uma simples queda de bicicleta. Deu exemplos de homens que enfrentaram as suas dificuldades e medos, e que graças a isso passaram para a história como grandes benfeitores da humanidade.

Discípulo: Que belas palavras! E o que o senhor fez?

Niestévisky: bem, animado por esse discurso, tentei mais uma vez, e caí novamente. Mas não desisti, continuei tentando e caindo, a tarde inteira, sempre vigiado de perto pelos olhos atentos do meu avô. Só quando já estava anoitecendo é que finalmente consegui. Vendo que eu não cairia mais, o velho foi para dentro de casa.

Discípulo: Puxa, o seu avô era um grande homem e gostava muito do senhor!

Niestévisky: Que nada. No outro dia a minha avó me contou que aquele velho sádico achava muito divertido me ver cair da bicicleta! Bem, mas ao menos eu aprendi uma grande lição.

Discípulo: Qual?!

Niestévisky: Que o meu avô era um grande filho da puta!

Discípulo: Mas ao menos o senhor ganhou uma bicicleta.

Niestévisky: É verdade, eu me diverti muito durante a semana em que estive com ela.

Discípulo: Mas o que aconteceu depois de uma semana?

Niestévisky: Um homem me viu andando de bicicleta na rua e foi até lá em casa para buscá-la, com a polícia. O velho tinha roubado a bicicleta.



Assim que o rapaz ouviu isso, notou que algumas lágrimas escorriam dos olhos do Mestre. Deduzindo que o velho sábio havia se comovido ao se lembrar desse episódio da sua vida, o jovem falou:


Discípulo: Mestre, percebo que essa lembrança deixou o senhor um pouco triste.

Niestévisky: Triste? Ora, claro que não! Porque acha isso?

Discípulo: Vejo lágrimas em seus olhos.

Niestévisky: Ah, é essa maldita catarata!

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