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31 de jan de 2011

DIÁLOGO SOBRE O JOVEM NIESTÉVISKY, E SUA FALTA DE JEITO COM AS MULHERES.



Niestévisky nem sempre foi o homem sedutor por quem milhares de mulheres, em todo o planeta, e até mesmo em outros planetas, têm se apaixonado perdidamente nas últimas décadas. Na verdade, no começo ele era um pouco desajeitado com as mulheres, tropeçava nas palavras, ficava nervoso, suava frio etc. Mas com o passar tempo ele foi aprendendo com os próprios erros e desenvolvendo a sua técnica infalível.
O diálogo que será apresentado logo abaixo retrata um pouco das dificuldades que o jovem Niestévisky enfrentou com as mulheres. Apesar de ser um pouco embaraçoso expor o Mestre desse jeito, por outro lado, isso serve para mostrar a sua incrível capacidade de superação.


Numa bela tarde ensolarada, Niestévisky e sua jovem namoradinha estavam sentados num banco de praça, numa pequena cidade do interior. A conversa entre eles não estava se desenvolvendo muito bem, se é que se poderia chamar aquilo de conversa, afinal, já fazia mais de meia hora que os dois estavam lá sentados, no mais completo e incômodo silêncio. Sabendo que era preciso fazer alguma coisa, Niestévisky reuniu toda a coragem que possuía, e depois de ensaiar mentalmente dezenas de vezes o que ia falar, acabou dizendo:

Niestévisky: Eu te amo!

Bem, não foi nada original, ou brilhante, mas foi uma bela frase. O problema é que a mocinha era jogo duro e invés de retribuir com um outro “eu te amo”, ou pelo menos um suspiro, ou qualquer coisa do tipo, ela resolveu dizer:

Namorada: Eu não acredito.

Niestévisky: (com ar pensativo, ele fez uma pequena pausa e disse, como se falasse para si mesmo) Eu não entendo as mulheres, eu digo que amo e nenhuma acredita. Se fosse uma vez só, ainda tudo bem, mas só esta semana você já é a quinta que duvida do meu amor... ops...


(percebendo que havia acabado de falar o que não devia, Niestévisky tenta mudar de assunto)

Niestévisky: Estou pensando em comprar um cavalo...

Claro que a garota não caiu nesse truque)

Namorada: Ah, seu cachorro! Então quer dizer que você anda por ai mentindo o seu amor para qualquer garota bonita que encontra pela frente?

Niestévisky: (com ar sério de quem se sentiu ofendido pelo que ela disse respondeu) Ora, mas é claro que não! Eu só tenho olhos para você.

Namorada: (sarcástica, e com faíscas de ódio saltando dos olhos) Sei, e é claro que eu acredito nisso!

Niestévisky: (aparentando profunda indignação) Não subestime assim os meus sentimentos! Além disso, saiba que eu não quero uma mulher bonita, nem linda, nem inteligente, nem gostosa, nem graciosa, nada disso. Eu quero é você!

(novamente percebendo que havia falado o que não devia, Niestévisky tenta mudar de assunto)

Niestévisky: Estou pensando em comprar um cavalo.

Namorada: Ah, então eu não sou bonita, nem inteligente, nem nada disso... então eu não tenho nenhuma qualidade?

Niestévisky: Claro que tem, meu amor. Aliás, você possui algo que nenhuma outra mulher possui, e que todas gostariam de possuir, mas que só você tem.

Namorada: (toda dengosa, esperando um elogio) Hum, é mesmo? E o que é?

Niestévisky: Eu. (disse isso e riu, achou que era uma boa piadinha para descontrair o clima tenso, mas infelizmente a garota não estava com muito bom humor naquele dia)

Namorada: (retorcendo a cara de tanta raiva) Mas seu filho da...

Niestévisky: (interrompendo bruscamente) Espere, não macule sua linda boca com palavras de baixo nível!

Namorada: Mas é esse tipo de palavra que você merece, seu cachorro!

Niestévisky: Minha amada, esqueça essa raiva e permita que eu me retrate. Você pode me pedir o que quiser, qualquer coisa, até mesmo a lua, e eu te darei.

Namorada: Pode ser.

Niestévisky: Pode ser o quê?

Namorada: Pode me dar a lua.

(Niestévisky não esperava por essa, pensou por alguns segundos e mandou a melhor resposta que encontrou, que não era grande coisa mas que foi a melhor que pôde criar, assim de improviso)

Niestévisky: Pois bem, se é a lua o que você quer, ela é sua, quando quiser é só você ir buscar.

Namorada: Eu buscar?

Niestévisky: Sim amor, sabe, minhas costas estão me incomodando um pouco, não sei direito o que é...

Namorada: (interrompendo) Sabe, você definitivamente não é nada romântico!

Niestévisky: (indignado com o que acabou de ouvir) Como não? Até escrevi esse cartão de amor pra você.

(entregou o cartão, ela abriu e leu o seguinte: Minha amada, não se afaste de mim jamais, pois quando penso em perdê-la, a tristeza se apossa de mim de tal forma, que sinto como se um demônio da quinta dimensão, vestido de nazista, retorcesse com alicates incandescentes, os delicados mamilos róseos da minha alma.

Namorada: Que horror! Niestévisky, você deve ter algum problema mental, e dos graves! Olha, lamento dizer isso, mas infelizmente você vai me perder.

Niestévisky: Perder você? Impossível!

Namorada: Impossível por quê?

Niestévisky: Olhe só o seu tamanho, eu teria que ser o homem mais distraído do mundo para perder algo assim tão grande.

Dessa vez ela nem disse nada, contentou-se em desferir um potente soco de direita no olho do jovem Niestévisky, soco este que o deixou desacordado por algumas horas, e com o olho roxo por duas semanas.

19 de jan de 2011

DIÁLOGO SOBRE ILUMINAÇÃO


Enquanto Niestévisky caminhava pelo jardim, verificando como estava a saúde física e mental das suas petúnias premiadas, o discípulo se aproxima e pergunta:

Discípulo: Mestre, desculpe interromper, mas estou com dificuldades para meditar e preciso de sua ajuda. Como faço para meditar corretamente?

Niestévisky: Simples, basta ficar parado e não pensar em nada.

Discípulo: Isso eu sei, mas é complicado. Eu já tentei várias vezes, mas quando eu começo a não pensar, logo penso, “consegui, não estou pensando em nada!” E ai já estou pensando em algo, e a meditação vai por água abaixo.

Niestévisky: Bem, você tem que ser paciente, a prática leva a perfeição.

Discípulo: Sim mestre, é isso que estou fazendo, mas confesso que às vezes me dá vontade de desistir. Não existe alguma técnica que me facilite atingir o objetivo?

Niestévisky: Sim, existe, mas é um método muito radical e perigoso, que poderá comprometer a sua mente de maneira irreversível.

Discípulo: Tudo bem, estou disposto a me arriscar. O meu desejo de me conectar com o universo é maior do que qualquer outra coisa.

Niestévisky: Então tudo bem, já que você assume os riscos, eu conto. Se, ao meditar, você não conseguir calar a sua mente, silenciar os seus pensamentos e não pensar em nada, crie em sua casa um lugar especial para meditação.

Discípulo: E como deve ser esse lugar?

Niestévisky: Retire tudo o que houver num quarto, então, quando o quarto estiver vazio, coloque no centro dele uma poltrona confortável. Depois disso, coloque uma cortina grossa na janela, de modo que impossibilite qualquer visão exterior que possa distrair a sua atenção. Melhor ainda se você eliminar completamente a janela, fechando-a com tijolos.

Discípulo: Hum, e fazendo isso poderei meditar com mais facilidade?

Niestévisky: Ainda não, falta o principal.

Discípulo: E o que é?

Niestévisky: Bem, como o seu objetivo ao meditar é não pensar em nada, você deverá colocar na sala um objeto que irá auxiliá-lo muito para alcançar o objetivo.

Discípulo: E o que é? Uma estátua de algum deus, uma relíquia, uma mandala, ou algo assim?

Niestévisky: Quase, instale uma televisão na sala.

Discípulo: Uma televisão?!?!

Niestévisky: Isso mesmo. Depois é só sentar na poltrona e assistir. Garanto que ao ser exposto a odses maciças de televisão, logo você não estará pensando em nada. E não se esqueça, dê preferência aos canais abertos, e aos programas mais populares. Mas cuidado, pode ser uma viajem sem volta. Se você sentir que seu cérebro está começando a escorrer pelos seus ouvidos, desligue o aparelho rapidamente.

Discípulo: Que método estranho...E o senhor já tentou esse método?

Niestévisky: Sim, tentei, mas foi traumático. Tive que lutar contra tentações terríveis.

Discípulo: Por exemplo?

Niestévisky: Bem, comecei a sentir desejos estranhos, vontade de comprar jogos de ferramenta, sanduicheiras elétricas, parafernálias eletrônicas de todos os tipos. Além disso, passei dias sendo atormentado pela lembrança de jingles comerciais e refrões de músicas de quinta categoria. No auge me deu vontade de fazer coisas bizarras como ir para a Disney, comprar um chapéu com orelhas do Mickey e tirar fotos ao lado de um cara vestido de Pateta. Mas eu resisti e superei esses pensamentos. Bem, resumindo, foi assim, depois de alguns dias de amortecimento mental, finalmente atingi a iluminação.

Discípulo: Ah, então o senhor atingiu a iluminação?!?!

Niestévisky: Sim.

Discípulo: E como é?

Niestévisky: É muito bom, a sensação é indescritível. Mas, para ser franco, não me lembro muito bem, já faz muito tempo que ela acabou.

Discípulo: Mas eu pensei que a iluminação fosse algo perpétuo.

Niestévisky: Que nada, eu fiquei iluminado por apenas 6 meses.

Discípulo: E depois desse tempo, o que aconteceu.

Niestévisky: Um dia O Universo mandou um anjo até mim, e ele cortou a iluminação por falta de pagamento.

12 de jan de 2011

EPÍSTOLA SOBRE A TRADUÇÃO DE UMA OBRA NIESTÉVISKYNIANA.



Caro discípulo, é com grande alegria que informo a você, e ao mundo, e ao universo todo, que acabei de escrever mais um livro, e que com ele eu adiciono mais 2.800 páginas à minha já vastíssima obra literária. Estou muito feliz com meu novo trabalho, pois esse texto possui uma particularidade interessante que o distingue das minhas outras obras. Ele foi completamente escrito em copta.

Caso você não saiba, e conhecendo você como eu conheço, imagino que não saiba mesmo, o copta é uma variação do antigo idioma egípcio, com o acréscimo de palavras gregas e latinas e que era usado correntemente desde o século III D.C.

Essa língua era escrita com letras gregas e seu alfabeto possuía, além das 24 letras gregas, mais outras 7, provenientes do memótico, que se destinavam a traduzir sons particulares da língua egípcia. Com o passar do tempo, o copta acabou sendo substituído pelo árabe no uso popular, mas ainda hoje ele é usado como língua litúrgica.

Eu adoraria falar mais sobre minha obra, e sobre o copta, mas estou com um pouco de pressa, por isso não posso me deter em pormenores. Bem, a verdadeira razão do envio desta carta é que preciso de um pequeno favor seu. Como deve ter percebido, se o correio cumpriu corretamente o seu trabalho, você está recebendo um pacote com os originais do meu livro. Preciso que você procure alguém para traduzi-lo, preferencialmente por preços módicos, pois editá-lo no original, em copta, reduziria drasticamente o possível número de leitores e prejudicaria a sua comercialização.

Espero que a tradução não demore muito, portante seja ágil! Eu mesmo gostaria de traduzir meu texto mas, infelizmente, estou impedido de fazê-lo, já que não falo absolutamente nada desse idioma esquisito. Por isso preciso esperar até que seja terminada a tradução, pois só assim poderei finalmente descobrir o que foi que eu escrevi. Então seja rápido, a curiosidade está me matando!

Ps: Pague o tradutor do seu próprio bolso, estou meio desprevenido financeiramente. Devolvorei seu dinheiro assim que sair a minha aposentadoria.

Grande abraço, saudações cordiais, benção e etc etc etc
Ass. Niestévisky.

3 de jan de 2011

Niestévisky, e a sua tardia paixão juvenil.



É natural que os meninos se apaixonem pelas suas professoras, bem, ao menos pelas professoras bonitas, é claro. Com Niestévisky não foi diferente, ele também se apaixonou por uma jovem e encantadora professorinha do primário. Mas essa não foi exatamente uma paixão infantil, já que Niestévisky estava, naquela época, com mais de quarenta anos.

Niestévisky conheceu a jovem porque ele morava na frente da escola onde ela lecionava. Foi uma paixão arrebatadora. Ferido pela flecha do cupido, todos os dias, na hora da entrada e na hora da saída dos alunos, Niestévisky ficava parado na frente do portão da sua casa, com a cara idiota de apaixonado, vestindo o seu terno de domingo e com cabelos penteados e dentes escovados. Assim, toda vez que a jovem passava por ele, o pobre apaixonado estufava o peito, encolhia a barriga e dava um sorriso radiante, usando a sua melhor dentadura, enquanto tentava fazer uma cara sexy. Mas ela passava por ele completamente indiferente e sem nem mesmo notar a sua presença.

Assim o tempo foi passando e Niestévisky ficava cada vez mais apaixonado, porém nada acontecia. Por isso um dia ele tomou coragem, e meia garrafa de vodca com limão, e resolveu escrever uma carta declarando seus sentimentos para a garota. Depois de pensar muito, escrever centenas de rascunhos, pesquisar frases bonitas em poesias de amor, finalmente terminou a sua carta, colocou-a num envelope e postou no correio.

Depois disso, Niestévisky ia todos os dias até a caixa de correio, ansioso por encontrar uma carta da sua linda professorinha. Essa angústia durou uma semana, mas finalmente um dia o carteiro parou na frente da sua casa e depositou um envelope na sua caixa. Assim que o carteiro desapareceu, Niestévisky saiu correndo para buscar a tão esperada resposta.

Com as mãos trêmulas, ele colocou os óculos, sentou-se no sofá e leu no envelope o nome do remetente. Sim, era uma carta enviada pela sua amada professorinha. Mal podendo conter o nervosismo, ele rasgou o envelope, retirou a carta e começou a ler, mas, para sua terrível decepção, o conteúdo não era exatamente o esperado.

Dentro do envelope o pobre e desiludido Niestévisky encontrou a carta que ele mesmo havia enviado para a jovem. Sim, ela devolveu a sua carta, mas com alguns acréscimos. Agora o papel estava cheio de rabiscos feitos com tinta vermelha. A professorinha havia corrigido o seu texto e apontado todos os erros gramaticais. No canto esquerdo superior, estava a sua nota: 3,5.

Bem, depois disso, Niestévisky mudou-se para outra casa... e comprou um dicionário e alguns livros de gramática.