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28 de abr de 2011

Epístola cinematográfica




Caro discípulo, diga a todos que estou bem, o hotel é confortável e a viagem foi boa. Passei por alguns contratempos, mas nada muito grave. A empresa aérea fez confusão com as bagagens e me entregou uma mala que não é minha. Pensei em reclamar e exigir a troca imediata das bagagens, mas então me lembrei que eu havia esquecido a minha mala em casa, por isso resolvi não falar nada, e já troquei de hotel para não ser encontrado.

Eu sei, isso pode não parecer muito honesto, se avaliado pela perspectiva de uma pessoa não iniciada nos grandes mistérios do universo, mas esse, evidentemente, não é o meu caso. Minha visão transcendental me fez perceber que o erro da companhia aérea foi causado pela providência divina, afinal, o grande arquiteto do universo não gostaria que eu andasse por ai dando as minhas palestras sempre com a mesma roupa. Não ficaria bem para um homem da minha importância andar com roupas sujas em público. Foi por isso que o universo conspirou para que eu recebesse essa bagagem.

Infelizmente a divindade poderia ter me enviado uma bagagem com roupas um pouco mais apropriadas. Não sei quem é o dono dessa mala, mas posso deduzir que é um sujeito meio estranho. Quando abria a mala, invés de encontrar roupas normais, encontrei um monte de roupas, digamos, exóticas. Como ficarei por aqui mais um mês, e não disponho de fundos suficientes para comprar roupas novas, estou improvisando com o que encontrei na mala. Agora mesmo, enquanto escrevo está carta, estou usando uma roupa de Darth Vader. Bem, não vou reclamar, a roupa é confortável, apenas é um pouco difícil respirar com essa máscara. Eu sei, você deve estar pensando que bastaria eu não usar a máscara. Também pensei nisso, mas o meu lado infantil não resistiu, já estou até imitando aquela voz dele, e hoje de manhã quebrei um vaso enquanto brincava com meu sabre de luz, que improvisei com um cabo de vassoura. Tudo bem, pode parecer esquisito, mas é bem divertido. Para a minha palestra de amanhã já mandei passar a fantasia de Michael Jackson, que estava um pouco amarrotada. Sabe, esse tal de moonwalk é mais difícil do que eu pensava, mas eu sou um homem perseverante, acho que até amanhã eu consigo.

Mas deixando isso pra lá, vou retomar o real motivo desta carta. Hoje de manhã, fui participar de uma palestra feminista e achei ótimo já que só havia mulheres. Nessa palestra não falei nada, sabe como é, mulher quando começa a falar não para mais. Mas não estou reclamando, gostei do que elas disseram e concordo com cada palavra. Inclusive, fiquei tão tocado com o que ouvi que resolvi dar a minha contribuição para o movimento. Depois da palestra voltei para o hotel e comecei a pensar num modo de mostrar o valor das mulheres, um modo de mostrar ao mundo masculino que mulheres não são apenas objetos sexuais que nas horas vagas lavam cuecas e cozinham.

Depois de muito pensar sobre o melhor modo para ajudar a causa feminista, resolvi escrever um roteiro de cinema. Será um filme onde quatro amigas discutirão coisas importantes e profundas, indo totalmente contra os esteriótipos machistas. Já estou escrevendo a primeira cena: as quatro amigas caminham por uma praia deserta e discutem a obra de Martin Heidegger, enquanto ajeitam seus minúsculos bikinis sobre seus corpos esculturais. Bem, por enquanto é isso, ainda preciso desenvolver melhor a ideia, afinal, escrever um bom roteiro não é fácil. Já sei como o filme terminará, mas ainda não encontrei a fórmula certa para que o roteiro se desenvolva satisfatoriamente até o clímax, onde as quatro amigas estarão lutando nuas numa banheira de gel, para salvar a humanidade de uma invasão de demônios nazistas que invadiram a terra com naves espaciais. Continuarei trabalhando nisso.

Mas agora esqueça o roteiro, que disso eu cuido, e comece a se preparar para o trabalho. Deixo para você a missão de captar os recursos necessários para a filmagem e preparar a pré-produção. Sei que você nunca fez isso antes, e que cometerá alguns erros, provavelmente muitos, mas fique tranquilo, eu confio em você, além disso, não encontrei ninguém disposto a fazer esse trabalho, assim terei que me contentar com você mesmo. Então não fique intimidado pelo medo de errar, lembre-se de que todos os seres humanos erram, o importante é não se deixar abater e seguir em frente. Mãos à obra!

Um cordial abraço e até logo. Ass.: Niestévisky

ps: eu disse que todos os seres humanos erram, bem, eu sou um ser humano e não erro. Então esqueça isso que eu disse sobre todos errarem, já que a minha afirmação estava errada.

Ps2: pensando melhor, se eu errei ao dizer que todos erram, exceto eu, então não esqueça a minha afirmação, afinal, ela estava certa.

Ps3; hum... pensando bem... ai, deixe pra lá, paradoxos me dão dor de cabeça...

11 de abr de 2011

DIÁLOGO SOBRE O ÓCIO PRODUTIVO


Enquanto passava pela frente do instituto do grande Niestévisky, o vizinho, antigo desafeto do mestre, observou que este se encontrava tranquilamente sentado numa cadeira de balanço, fumando um cigarro e olhando para o nada.

Nisso não havia nenhuma novidade, já que o vizinho quase sempre se deparava com a mesma cena, mas o fato é que isso, por alguma razão, o incomodava muito. Pois bem, esse incômodo foi se acumulando lentamente durante os anos, e nesse dia o vizinho resolveu partir para o ataque.

Sem pedir licença, ele foi entrando nas dependências do instituto e se aproximou do mestre. Normalmente o lugar é fortemente vigiado, já que ali se encontram as respostas para muitos mistérios da humanidade, do universo, do além, e de qualquer outra coisa que você possa imaginar. Por isso o lugar era fortemente vigiado, afinal, não seria bom que essas respostas caíssem na mão de governos, terroristas, ou pior ainda, da receita federal.

Mas nesse dia o vizinho teve sorte, já que o cão de guarda do instituto, Cérbero, um chihuahua psicótico com graves problemas de personalidade, havia sido enviado ao veterinário para manutenção. Não fosse isso, o pobre homem estaria com sua vida seriamente comprometida.

Aproximando-se do mestre, com cara fechada e sem nem mesmo dizer um cordial “boa tarde”, o homem foi logo falando:


Vizinho: Niestévisky, vejo que mais uma vez o senhor está ai sentado na varanda. Fiquei curioso, afinal de contas, o quê o senhor fica fazendo aí?

Niestévisky: Nada.

Vizinho: Foi o que eu imaginei. Desculpe me intrometer na sua vida, mas a ociosidade não é uma boa coisa.

Niestévisky: É verdade, a ociosidade é terrível. É uma péssima característica para as outras pessoas.

Vizinho: Como assim para as outras pessoas?

Niestévisky: Ora, já imaginou se ninguém trabalhasse? Seria terrível! Se ninguém fizesse nada, quem teria que fazer seria eu.

Vizinho: Ah sim, então todos devem trabalhar e só o senhor é que pode ficar ai ocioso?

Niestévisky: Sim.

Vizinho: E posso saber por quê o senhor pode ter esse privilégio?

Niestévisky: Já ouviu falar em ócio produtivo?

Vizinho: Sim, e imagino que o senhor vai me dizer que esse é o seu caso!

Niestévisky: Não vou dizer porque o senhor mesmo já disse. Mas é exatamente isso.

Vizinho: E posso saber o que esse seu ócio todo produz?

Niestévisky: Muitas coisas. Por exemplo, agora a pouco, antes do senhor me interromper, eu estava planejando uma aventura que me trará muita publicidade.


Vizinho: Que aventura?

Niestévisky: Estou planejando ser o primeiro homem a atravessar o canal da mancha, sem um barco, é claro.

Vizinho: (irritado) Mas já fizeram isso, e faz tempo!


Niestévisky: Já?

Vizinho: Sim!

Niestévisky: De bicicleta?

Vizinho: … bem... de bicicleta acho que não... Mas como o senhor vai fazer isso?

Niestévisky: Bem, isso eu ainda não sei, e se o senhor ficar aqui me atrapalhando, provavelmente nunca saberei!

Vizinho: O senhor é um sujeito muito excêntrico! Isso para não dizer bizarro, ou maluco mesmo! Que coisa, inventar uma desculpa absurda dessas só para justificar a sua preguiça!

Niestévisky: Antigamente a ideia da terra ser redonda também era absurda, não tenho culpa se o senhor não é um homem de visão. E além disso, é claro que não passo o tempo todo pensando apenas nisso. Como eu disse, meu ócio produz muitas coisas.

Vizinho: Pois então o senhor me diga mais uma coisa que ele produz.

Niestévisky: Produz descanso.

Vizinho: (desanimado) Não sei nem por que eu perguntei... Depois dessa vou embora, desisto! Até mais ver.

Niestévisky: Mas vai embora assim, sem nem tomar uma cervejinha?

Vizinho: (pensou um pouco resolveu aceitar o convite, afinal, estava calor e já que ele estava ali mesmo, não custava nada tomar uma) Tudo bem, vou tomar uma cerveja. Onde está?

Niestévisky: Não está. Acabou a cerveja, mas se o senhor for até o mercado buscar, ficarei muito agradecido.


Assim que Niestévisky terminou de falar, o vizinho virou as costas e saiu sem dizer nada. Até chegar em casa, ele foi chutando tudo o que encontrou pela frente.