Seguir por Email

26 de out de 2010

Neve.


Niestévisky possui um vizinho muito desagradável, um homem chato, mau-humorado, ranzinza, grosseiro, enfim, um homem cheio de defeitos. Porém, de todos os defeitos que ele possui, o maior de todos, com certeza, é a implicância que ele tem com Niestévisky. Inacreditavelmente, o homem não acredita na superioridade intelectual, mística, física e etc, do nosso grande mestre.
O sujeito mora só, o que é plenamente compreensível, já que ninguém suportaria conviver com alguém como ele. Pois bem, como não tem nada para fazer com a sua vida, ele passa o tempo todo pensando em alguma maneira de prejudicar a mundialmente famosa e renomada fama do grande Niestévisky.
Certa vez, sem aguentar mais o ódio iconoclasta que domina a sua alma nefasta, o homem chegou a praticar um terrível atentado contra o mestre... bem, na verdade não foi um atentado tão terrível assim, e também não foi exatamente um atentado. O ataque consistiu em pichar uma frase denegrindo a honra de Niestévisky. Armado com uma lata de tinta e um pincel, ele se arrastou sorrateiramente, ocultando-se sob o manto negro da escuridão da madrugada, e covardemente escreveu no muro do instituto onde Niestévisky mora, a seguinte frase: Niestévisky é um bobão! Esse ato absurdo revela duas coisas, a primeira é o ódio que ele sente pelo mestre, e a segunda é que o sujeito não é exatamente um prodígio na arte de ofender pessoas.
Uma outra vez, pela manhã, Niestévisky saiu de casa vestindo o seu pijama sagrado e foi buscar o jornal, que o entregador insistia em jogar em qualquer lugar que não fosse perto da porta. Por coincidência, no mesmo instante passava o seu vizinho pela calçada. Niestévisky, cordial como sempre, disse um amistoso bom dia, que foi respondido pelo vizinho com um indecifrável grunhido e continuou caminhando. Porém, sem conseguir conter o seu ódio irracional, o homem deu meia-volta e disse:
Vizinho: Andei ouvindo por ai que o senhor disse que pode controlar a natureza.
Niestévisky: Tu o dizes.
Vizinho: Sim, eu sei que eu digo... mas eu quero é saber se é verdade!
Niestévisky: É verdade sim.
Vizinho: Ah, isso já é demais! Como o senhor é muito mentiroso!
O mestre, ao ser ofendido, utilizou-se de toda a sua perspicácia, e lhe deu uma resposta à altura:
Niestévisky: Não sou não.
Com o sorriso de quem está prestes a dar um xeque-mate no adversário, o vizinho diz:
Vizinho: Pois então prove!
Sem se deixar intimidar, Niestévisky aceita o desafio.
Niestévisky: Pois então peça algo,qualquer coisa, que terei o maior prazer em executar.
Vizinho: Quero algo raríssimo, algo que jamais aconteceu antes.
Niestévisky: Sei, quer que eu arrume uma mulher para sair com você?
Vizinho: Ora, claro que não! O senhor deixe de ser engraçadinho... Eu quero que você faça nevar!
Niestévisky: Pois bem, é um pedido difícil de ser atendido, mas tudo bem. Dentro de alguns dias nevará.
Vizinho: Dentro de quantos dias? O senhor não pense que vai me enganar...
Niestévisky: Ora, meu amigo, eu não sou homem de enganar ninguém, não assim, de graça! Não posso dizer ao certo quando será, mas será logo, isso é certo.
Vizinho: Pois bem, esperarei então.

Assim os dois foram para as suas respectivas casas, sem despedidas nem gentilezas.
Os dias foram passando e nada de nevar, para contentamento do vizinho. Porém, 15 dias depois daquela conversa, o vizinho ouve seu telefone tocar, era Niestévisky.

Vizinho: Alô.
Niestévisky: Sou eu, Niestévisky. Estou ligando para saber se agora você está satisfeito.
Vizinho: Satisfeito com o que?
Niestévisky: Com a neve, oras. Ainda não viu? Vá até a janela.
O vizinho foi, abriu as cortinas e olhou parar fora por alguns instantes e voltando ao telefone diz:
Vizinho: Sim, acabei de olhar e não vi neve nenhuma. Está chovendo, mas nada de neve!
Niestévisky: Está nevando!
Vizinho: Não senhor, está chovendo!
Niestévisky: Nevando!
Vizinho: Chovendo!
Niestévisky: Nevando!
Vizinho: É chuva, gotas de chuva, gotas de água!
Niestévisky: É isso mesmo, gotas de água...
Vizinho: (rindo de satisfação) Ah, então admite a derrota!
Niestévisky: Claro que não, são gotas de água porque é neve líquida!
Vizinho: Neve líquida??? Ora seu... alô? Alô?...

O vizinho tentou contra-argumentar, mas reconhecendo a si mesmo como vencedor, Niestévisky desligou o telefone.

5 de out de 2010

SE EU FALASSE A LINGUA DOS ANJOS...

O discípulo vem até Niestévisky e diz:

Discípulo: Mestre, fui a uma igreja evangélica ontem, dessas pentecostais.

Niestévisky: Foi fazer o que lá?

Discípulo: Fui buscar a esperança.
Niestévisky: Mas por que você está desesperançado?!

Discípulo: Não, mestre, esperança é o nome da minha namorada!

Niestévisky: Ah, tá bom, mas quando é nome próprio você deve falar com letra maiúscula! Mas enfim, continue.

Discípulo: Desculpe mestre, eu sempre fui ruim de gramática. Mas então, como eu estava dizendo, fui lá buscar a ESPERANÇA...

Niestévisky: (voltando os olhos para o alto, e com uma expressão de desânimo) …é só a primeira letra que é maiúscula!...

Discípulo: Ops, foi mal, mas continuando, cheguei cedo demais e o culto ainda estava no meio. Como a porta estava aberta, resolvi entra para ver como era aquilo, já que eu não conhecia.

Niestévisky: Fez muito bem, devemos sempre conhecer outras formas de pensar.

Discípulo: Eu sei mestre, conhecendo outras formas de pensar nós podemos descobrir, e corrigir, possíveis erros em nossa próprias ideias.

Niestévisky: Bem, eu ia dizer que conhecer ideias alheias é muito útil para confirmar a superioridade da minha forma de pensar, mas isso que você disse até que ficou bonito. Mas me diga, o que você achou?

Discípulo: Sei lá, eu estava sentado no banco, de repente o pastor começou a fazer uma oração e as pessoas começaram a se contorcer. Foi estranho, mas o mais esquisito foi que elas começaram a falar numa língua estranha.
Depois eu perguntei para a Esperança o que era aquilo e ela me disse que era a manifestação do batismo de fogo do Espírito Santo, e que aquelas pessoas estavam sendo agraciadas com o dom de línguas, que aquila era a lingua dos anjos...

Niestévisky: Isso me faz lembrar da Doroteia... (suspiro)

Discípulo:Era evangélica?

Niestévisky: Sei lá, mas que dom de língua ela... hã... (pigarro) falava dez idiomas... bem, esqueça isso e continue.

Discípulo: Pois então mestre, ela me explicou mas eu fiquei na dúvida. O que era aquilo afinal de contas?! Verdade, mentira, auto-sugestão, hipnose, maluquice? O senhor pode esclarecer a minha dúvida?

Niestévisky: Posso sim. De fato aquilo é exatamente o que a sua namorada lhe disse. Mas devo dizer que essa igreja é adepta de uma tradição muito antiga e já quase que completamente fora de moda.

Discípulo: Por que mestre?

Niestévisky: É que com essa coisa de globalização, marketing, etc, o espírito santo adotou, já há algum tempo, o inglês como língua oficial.

Discípulo: Nossa, até a divindade anda preocupada com isso?

Niestévisky: Mas é claro, são os tempos modernos.

Discípulo: Que coisa... Bem, obrigado pelo esclarecimento.

Niestévisky: De nada, estou aqui neste planeta para isso mesmo, trazer a luz para as pobres almas que vivem obscurecidas pela sombra da ignorância.

Discípulo: Mestre, se o senhor me permite, eu gostaria de falar só mais uma coisa...

Niestévisky: O que?

Discípulo: É que no texto aí em cima o senhor falou Espírito Santo com letra minúscula...

Niestévisky: (irritado) Ah, não encha o saco!