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25 de abr de 2010

O VENDEDOR


Voltando da cidade, para onde Niestévisky o havia mandado numa missão, o discípulo vai ao encontro do Mestre, lhe entrega um pequeno pacote e diz:


Discípulo: Oh Grande Niestévisky, comprei o relógio que o senhor me pediu. (era um relógio daqueles de bolso, com uma corrente presa nele) É exatamente igual ao outro que o senhor tem, comprei no mesmo camelô. Mas sabe Mestre, não entendi uma coisa, por que o senhor mandou comprar esse relógio se já possui um exatamente igual?

Niestévisky: É que eu vendi o outro, e como você sabe, preciso de um relógio assim para as sessões terapêuticas. Eu não estava muito interessado em vender, mas o preço que o homem pagou por ele foi irresistível.

Discípulo: Desculpe a curiosidade, mas foi vendido por quanto?

Niestévisky: 100 mil reais.

Discípulo: 100 mil!!! 100 mil reais por um relógio que nem funcionava direito?!?! Mas esse relógio não vale nem 100 reais. Para ser mais preciso, um novo vale 17, 50.

Niestévisky: Eu sei. Mas ele me disse que achou o relógio muito bonito e perguntou onde poderia comprar um igual. Então eu disse que se ele quisesse, eu poderia vender aquele mesmo.
Discípulo: E ele aceitou esse preço absurdo?

Niestévisky: Bem, no começo ele teve uma atitude parecia com a sua, de espanto. Em seguida ele riu e disse que eu deveria estar louco. Mas eu lhe falei das qualidade do relógio, da sua beleza etc

Discípulo: Ah, o senhor me desculpe, mas ele caiu nessa?

Niestévisky: Bem, eu usei bons argumentos, mas confesso que talvez o fato de eu ficar balançando o relógio na sua frente enquanto eu falava, possa ter influenciado um pouquinho.


18 de abr de 2010

O DIRETOR


O Grande Niestévisky já foi diretor de um hospício. Começou de baixo, ainda como um simples interno, mas foi sendo gradativamente promovido até que atingiu o ponto mais alto da instituição, a diretoria. No entanto, o Mestre não aguentou o cargo por muito tempo. Era um trabalho muito cansativo e complicado. A toda hora aparecia algum novo problema, ou reaparecia algum problema velho.
Niestévisky tentou, bravamente, continuar no emprego, precisava do dinheiro, mas certa vez aconteceu algo que o fez desistir definitivamente de tudo aquilo e ele acabou pedindo demissão, ou, para ser mais preciso, simplesmente abandonou o cargo e nunca mais apareceu na cidade.


Um dia, ao chegar em casa, vindo do hospício, Niestévisky percebeu que havia esquecido alguns papeis importantes no seu escritório. Como precisava deles com urgência, resolveu ligar para lá e pedir que alguém trouxesse os documentos até a sua casa. O resultado daquele fatídico telefonema foi o seguinte:


Hospício: Alô, aqui é do hospício.
Niestévisky: Sou eu, Niestévisky. João, é você? (João era o secretário do hospício)
Hospício: Não, sou o Antenor.
Niestévisky: Antenor?... O interno?!!!
Antenor: Sim seu Niestévisky, sou eu mesmo.
Niestévisky: Mas o que você está fazendo aí? Cadê o João?!
Antenor: João saiu.
Niestévisky: Saiu? E foi para onde?
Antenor: Sei lá, não falou. Apenas abriu a janela é saiu voando. Acho que era urgente.
Niestévisky: Puta que pariu! Antenor, você não estava confinado na sala acolchoada?
Antenor: Tava sim, seu Niestévisky. Mas lá dentro tava muito calor, tão calor, que eu acabei derretendo e vazando pela fresta da porta.
Niestévisky: (tentando manter a calma) Me chama algum dos funcionários, alguém que esteja responsável pelo hospício, rápido!
Antenor: Pois não, só um momento. Alô, pode falar.
Niestévisky: Alô, quem fala?
Antenor: Antenor, seu criado.
Niestévisky: Antenor, sai do telefone e me chame alguém, sei lá, um enfermeiro, um médico, o porteiro, qualquer um!
Antenor: Não dá, o pessoal tá meio ocupado aqui.
Niestévisky: Fazendo o quê?!
Antenor: Tentando se livrar da camisa de força. O senhor nem imagino o trabalho que dá para escapar daquilo, quem inventou era um gênio. A imobilização é feita de um modo tão perfeito que...
Niestévisky: (interrompendo as divagações do Antenor) Não acredito, você fugiu e prendeu todo mundo?!?!
Antenor: Ora, claro que não seu Niestévisky! Os internos é que fizeram isso, quando eu cheguei já estava todo mundo preso. Quer dizer, todo mundo que estava solto estava preso e todo mundo que estava preso estava solto. Seu Niestévisky, posso perguntar uma coisa?
Niestévisky: … pergunte...
Antenor: como se desliga o aparelho de choque?
Niestévisky: (gritando) O quê?!?!
Antenor: Nada, deixa pra lá, acho que agora é tarde mesmo...
Niestévisky: Jesus Cristo!!!
Antenor: Ele saiu, disse que ia dar uma caminhada sobre o lago para esticar as pernas. Mas espera um pouco aí, que vou chamar alguém.
Hospício: Alô.
Niestévisky: Alô, quem fala?
Deus: Sou eu Deus. O senhor queria falar com o meu filho? Espero que ele não tenha feito algo errado, sabe, ele já tem 33 anos mas ainda continua sendo um menino.
Niestévisky: Ai meu Deus!
Deus: Isso, eu mesmo, o que deseja?
Niestévisky: Nada! Chame o Antenor de novo.
Deus: Desculpe, mas não dá.
Niestévisky: Por que não dá?!
Deus: Aqui não tem telefone.
Niestévisky: (lamentando para si mesmo) Ai, que vida desgraçada... o que eu fiz de errado para merecer isso?... mas que inferno!!!
Deus: Desculpe, esse é outro departamento. Só um minutinho que vou passar para lá.
Hospício: Alô.
Niestévisky: Alô! Quem fala?
Diabo: Eu sou o Diabo, ao seu dispor. Ofereço 100 reais e uma bicicleta.
Niestévisky: Oferece 100 reais no quê?!
Diabo: Ora, na sua alma. E já vou logo dizendo que não adianta pedir mais porque a oferta de almas anda muito grande e fez cair os preços. É a lei da oferta e da procura!
Niestévisky: Eu não quero vender nada!
Diabo: Então por que ligou?
Niestévisky: Por nada, esquece! Coloca o Antenor ao telefone.
Diabo: Não dá, aqui não tem telefone.
Niestévisky: Merda!!!...
Diabo: Sinto muito, acabou de sair. Entrou no vaso e deu a descarga.
Niestévisky: (tentando manter-se calmo diante do absurdo daquela situação, fala calmamente) Tá, tudo bem... Então me diga uma coisa, se não tem telefone como nós dois estamos conversando?!
Diabo: Sei lá, provavelmente você deve ser fruto da minha imaginação. Isso acontece às vezes, sabe, é que eu sou meio louco e ouço vozes com frequência.
Niestévisky: Olhe para a sua mão, não tem um telefone nela?
Diabo: Desculpe mas não estou encontrando.
Niestévisky: Não encontrou o telefone?
Diabo: A minha mão.
Niestévisky: (bem desanimado e beirando ao desespero) Mas que filho da... olha aí, na ponta do seu braço...
Diabo: Nossa, é verdade, está aqui mesmo. Como ela veio parar aqui? Foi você que fez isso? Ah já sei! Você deve ser Jesus, só pode ser, com essa mania de fazer milagres... Está me passando trote de novo moleque? Vou contar para o teu pai!
Niestévisky: Ai meu Deus...
Diabo: Só um momento, vou chamar.
Niestévisky: Não! Espera...
Deus: Alô.
(barulho de telefone desligando ao ser atirado contra a parede)
Deus: Ô Diabo, desligaram. Quem era?
Diabo: Sei lá, acho que era só alguma alucinação desocupada enchendo o saco.

11 de abr de 2010

O HOMEM, A OBRA.




Niestévisky possui uma vasta obra que trata de temas diversos, mas que possuem em comum o fato de que todos os seus trabalhos são de fundamental importância para a humanidade e para o bom andamento do universo.
Como é tipico de todas as grandes obras revolucionárias, os livros do mestre ainda não foram compreendidos pelo vulgo. Mas quanto a isso Niestévisky está tranquilo, pois ele sabe que chegará o dia em que a humanidade atingirá um nível evolutivo que possibilitará o entendimento, ao menos em parte, do seu vasto conhecimento.
Todos os seus livros se encontram esgotados atualmente, e como foram lançadas em edições pequenas, é quase impossível encontrá-las no mercado. Felizmente os originais, todos escritos em frágeis guardanapos de bar, encontram-se muito bem guardados na biblioteca do Vaticano, no setor de achados e perdidos. O mestre esqueceu a sua pasta quando fez uma visita ao Papa. Dizem as más línguas que foi culpa do vinho, mas não é verdade. O fato é que todos os grandes gênios são desatentos. Por estarem sempre preocupados com grandes temas, os gênios acabam por se descuidar das coisas menos importantes.





Segue abaixo uma pequena lista de alguns títulos da sua obra:



O incrível Hulk e a fotossíntese.
Friedrich Nietzsche, um estudo crítico sobre o maior bigode da filosofia ocidental.
Tratado geral das generalidades.
A globalização em contraponto à sbtelização.
Aprenda a ler sem professores.
A inclusão digital no exame de próstata.
A importância da lanterna de Diógenes para o mito da caverna de Platão.
Sócrates: Da Grécia antiga até a copa de 86.
Um breve resumo sobre o infinito.
A morte e os seus riscos para a saúde.
Criacionismo X evolucionismo (a partir da ótica do macaco).
Coletânea de textos auto-psicografados.
Uma nova ótica sobre a oftalmologia.

3 de abr de 2010

NI e STÉVISKY


Durante a sua juventude, O Grande Niestévisky foi acometido de um problema psiquiátrico. A doença apareceu repentinamente, sem nenhum sinal prévio que indicasse algo de errado com o maravilhoso cérebro do Mestre. Ele desenvolveu dupla personalidade.


Mas como Niestévisky não é homem de se deixar abater pelas agruras da vida, ou, no caso, não era homens de se deixarem abater pelas agruras da vida, ele resolveu utilizar a doença em seu favor. Aproveitando-se da dupla personalidade, montou uma dupla sertaneja.


Parece que a dupla chegou a atingir algum sucesso, e em alguns lugares do interior ainda é possível encontrar pessoas que se lembram da dupla Ni e Stévisky.
Mas, por mais promissora que fosse a carreira deles, ela acabou por causa de divergências artísticas. Ni e Stévisky viviam brigando para decidir quem faria a primeira e a segunda voz, e além disso também brigavam para saber quem seria o Ni e quem seria o Stévisky. Os dois queriam ser Ni porque ficava em primeiro lugar no cartaz. Artistas são assim mesmo, têm egos enormes.

Separados, os dois não queriam mais se ver, por isso partiram para extremos opostos do país. Eles ainda tentaram carreiras solo, mas nenhuma das duas decolou. Depois do fracasso musical, Ni foi caçar leões na Amazônia e Stévisky foi ser seringueiro no Rio Grande do Sul, ou vice e versa, mas por alguma razão também fracassaram nisso. Segundo o que eu pude apurar, Ni e Stévisky viveram separados durante dois anos, sem que um tivesse notícia do outro.


Passado esse tempo, os dois acabaram se encontrando no casamento de um primo comum aos dois. No começo houve uma certa animosidade entre eles, mas como eram carne da mesma carne, acabaram se reconciliando.


Parece que depois do reencontro, passadas algumas semanas, assim como surgiu, a doença desapareceu e Ni e Stévisky se tornaram novamente uma pessoa só. Pelo que se sabe, a doença nunca mais se manisfestou, embora eu tenha encontrado pessoas que afirmam terem presenciado Niestévisky tendo discussões acaloradas consigo mesmo, que às vezes chegam até a descambar para a violência física.